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No Dia do(a) Enfermeiro(a) e da Enfermagem

12/05/2021   .    Artigos de Formação
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O rosto do(a) enfermeiro(a) esconde um universo de sentimentos, como em poucas profissões pode acontecer. Hoje, 12 de maio, seu Dia, é uma bela oportunidade para se passear, discretamente, por este jardim maravilhoso plantado por Deus no coração humano, o coração do(a) enfermeiro(a).

Nenhum ser humano tem um coração de pedra. Em cada coração, há escaninhos diversos, onde está guardada, a sete chaves, a história da própria vida, tecida tanto por fatos memoráveis quanto por outros que, se encobertos pela poeira do tempo, não fariam falta; fatos do presente que se alinhavam à perspectiva dos que estão por vir; histórias de alegria permeadas por histórias de dor. O(A) enfermeiro(a) não é uma exceção. Ao chegar em seu trabalho, ele(a) traz no coração a enciclopédia de sua vida, que será uma das grandes e principais referências em seu trabalho de desvelo e de amor pelo próximo.

Como em poucas profissões, lida-se com a delicadeza de vidas humanas, algumas nos seus limites vitais. Nesse contexto, o(a) enfermeiro(a) tem que se orientar pelas normas gerais de cuidados específicos e por aqueloutras da entidade a que serve, entre as quais, horários, regulamentos… Além disso, sabe que não pode errar, sabe que não pode falhar!

As placas de sinalização dos canteiros desse jardim indicam opções bem diferenciadas e, às vezes, contrastantes. Vou começar pelos cactos, que, embora produzam flores, carregam, em geral, para si a proteção dos espinhos.

Com exceção da maternidade, onde a nota dominante é certa ansiedade na expectativa, superada pela alegria da chegada do(a) filho(a) tão sonhado(a), o clima numa casa de saúde traz sempre a marca da tensão direcionada ao bem-estar dos pacientes, com sua tipologia bem diversificada.

Há os pacientes “impacientes”, que imaginam que o mundo gira ao seu redor. Eles têm, sempre, algo a reclamar. Há os aflitos, que se “afligem” pela mínima demora, quando chamam o posto de enfermagem. Há os que têm alergia ao ambiente hospitalar e clamam, sem cessar, pela alta médica para voltarem às suas casas, embora ainda sem condições para tal. Não faltam também aqueles que são avessos aos medicamentos e que os escondem na boca sem os engolir, para cuspi-los, disfarçadamente, depois. Não posso esquecer os que se irritam pelas limitações da idade ou da doença, ou os desconfiados, que querem conferir, pessoalmente, todo medicamento que recebem. Acompanhando um amigo em um grande hospital, recordo-me do momento em que uma enfermeira, de compleição forte, deu-lhe uma cápsula para tomar, com um pouco de água. Ele, antes de tomá-la, com voz autoritária, perguntou à enfermeira: – “o que é isto?” E ela, no mesmo tom: – “remédio”! E ele tomou sem mais questionamentos.

Surgem, ainda, os acompanhantes que tentam burlar as normas de permanência no quarto. Quando o quadro vai se tornando mais grave, eles vêm com perguntas pouco discretas, inquerindo “se em uma cidade maior, ou em um outro hospital, haveria mais e melhores recursos para tratar aquele doente”, ou ainda, “se poderiam trazer um médico amigo para fazer uma visita”… Recordo, também, os acompanhantes que se imaginam entendidos no tema e que insistem em falar de parentes ou de amigos que tiveram a mesma doença e como foram tratados.

Se esses fatos são a moldura, a tela é a convivência diária do(a) enfermeiro(a) com a angústia, com o sofrimento e com a dor de seus pacientes.  Dói seu coração, quando a pessoa busca o hospital em situação limite, quando as possibilidades de recuperação são mínimas e testemunham o apagar de uma existência, codividindo o sofrimento de todas as famílias. É esse o momento de maior desgaste para os que trabalham na área da saúde e, sobretudo, para o(a) enfermeiro(a), que viveu uma maior proximidade com aquele que perdeu a luta para a morte.

Outro tipo de cactos, neste jardim, é a forma anônima com que o pessoal da enfermagem é, por vezes, tratado por aqueles que recebem seus cuidados. Dói também – mas felizmente há exceções – no coração do(a) enfermeiro(a) a ingratidão muda daqueles que receberam tantas atenções e benefícios.  Silencio outras desatenções mais pesadas que não convêm ser lembradas.

Não se pode esquecer os mais de 700 enfermeiro(a)s no Brasil (114 no mês de março/21 – dados do COFEN) que perderam suas vidas, arriscando-se, consciente e corajosamente, para tratar as vítimas da Covid 19! São heróis (heroínas) sem monumento a lhes marcar a honrosa presença na história!

Todo(a) enfermeiro(a) leva aos seus pacientes o alívio da angústia, da dor, da solidão, da incompreensão, mas, sobretudo, leva a esperança da saúde e da alegria de viver. Sua entrada no quarto de um enfermo já significa, para aquele que ali padece, que há alguém que se importa com sua dor, com seu sofrimento, e que lhe traz a esperança da saúde e da vida. Assim, felizmente, o jardim de um(a) enfermeiro(a) não tem apenas cactos, mas também outros canteiros, mais bonitos e bem maiores, repletos de cravos, de hortênsias, de açucenas, de jasmins, de lírios, de orquídeas e de rosas sem espinhos.

Como é belo saber da festa que o corpo clínico de um hospital faz para aquele(a)s que venceram a Covid 19 e que saem alegres e felizes, com os olhos em lágrimas, agradecendo aos que lhes devolveram a saúde e a vida. Essa mesma alegria é experimentada pelo corpo clínico a cada vez que um enfermo se recupera e volta feliz para junto dos seus. Embora nem sempre haja oportunidade para externá-la, é a alegria pela vitória, pelo sucesso dos cuidados dispensados em prol da vida.

É importante lembrar que o(a) enfermeiro(a) não trata um indivíduo, mas uma pessoa, que é pai ou mãe, esposo ou esposa, filho ou filha, irmão ou irmã, e que tem, portanto, um universo de relacionamentos humanos e de presença na sociedade da qual faz parte. Sua ausência, quando acontece, traz um vazio insubstituível na sua comunidade de pertença. Logo, o cuidado dispendido a essa pessoa é um cuidado coletivo, que se replica e que se expande para todos aqueles de seu convívio.

Assim, para esse confronto diário e permanente, o(a) enfermeiro(a) precisa se fortalecer no cultivo de algumas virtudes bem específicas para sua missão. São muitas. Lembro algumas, em especial:

  1. A Fé! Seja qual for sua religião, o(a) enfermeiro(a) que reza antes de seu trabalho e por seus doentes tem um poder de cura muito maior que aquele(a) que não reza. Mesmo o paciente não sabendo da oração do(a) enfermeiro(a), o resultado da oração surge sempre. Deus é o grande médico, mas Ele precisa do(a) enfermeiro(a)! É, sem dúvida, uma preciosa profissão o ser ajudante de Deus na cura das doenças das pessoas!
  2. A alegria. Que ela seja visível em seu rosto e na bondade de suas palavras! A alegria conduz ao otimismo, que é uma alavanca poderosa no combate a toda e a qualquer doença. A psicossomática vem crescendo na medicina clínica. Quando o paciente adquire confiança no tratamento que recebe, acelera-se o quadro de sua recuperação. Quando, porém, ele se entrega à doença, desanima de lutar pela saúde e pela vida, torna-se muito difícil devolver-lhe a saúde.
  3. A gentileza. É um encanto observar nos hospitais, quando o(a) enfermeiro(a), apesar do desafio do confronto permanente com o sofrimento e com a dor, a despeito do cansaço natural de seu trabalho, adorna sua presença com uma tonalidade de doçura, de carinho e de atenção para com seus pacientes. Como tal atitude é salutar, no sentido pleno desta palavra: traz saúde aos que a presenciam.
  4. A perseverança. A persistência tenaz em cuidar de pessoas cuja situação clínica promete poucas esperanças, pelo comum do acontecer. Conheço casos em que as perspectivas se viraram em cento e oitenta graus, contra toda esperança na praxe clínica, graças àqueles que lutaram contra toda desesperança.

Outras virtudes ornam a pessoa do(a) enfermeiro(a), como o silêncio, a capacidade de escuta, a sensibilidade, a disponibilidade, a paciência e a resiliência. Qualidade também muito importante para a pessoa do(a) enfermeiro(a) é a difícil arte de saber desligar os seus registros mentais, ao sair de casa e caminhar para o hospital e, igualmente, ao deixar o hospital, para voltar ao aconchego de seu lar. São dois mundos carregados de sentimentos, de preocupações, de alegrias e de desafios: um estritamente de ordem pessoal – o seu lar, a sua família, o seu sangue –; o outro, voltado para o serviço aos irmãos, onde toda saúde recuperada, toda vida regatada torna-se uma vitória que aquece o coração e que enche sua mente de alegria na plena realização profissional.

Como seria o mundo se não existissem o(a)s enfermeiro(a)s?

A você enfermeiro, enfermeira, a minha homenagem e a minha grata admiração!

Deus o(a) abençoe e o(a) fortaleça em sua tão nobre e bela missão: suavizar a dor de alguém, devolver aos irmãos a saúde e a alegria de viver! Parabéns pelo seu Dia!

 

+ João Bosco Óliver de Faria

Arcebispo Emérito de Diamantina

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