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Por uma fotografia litúrgica

28/09/2021   .    Artigos de Formação
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É, sem dúvidas, um tempo de explosão de imagens: a facilidade de se obter e de se reproduzir; a rapidez de se acessar e replicar uma fotografia, uma pintura, uma arte visual de qualquer espécie, há muito nos dá a certeza de que a imagem – no caso desta reflexão, a fotografia – é a senhora das mídias.

Não se passam – ou não se rolam – mais do que duas páginas sem que surja uma imagem ilustrativa. Às vezes, a fotografia fala sozinha, afirma, noticia, garante. E impacta. “Uma imagem vale…”.

(Créditos: André Fachetti)

A comunicação da Igreja e na Igreja, obviamente, também se utiliza deste elemento (cada vez mais) imediato, amplo, onipresente. Se antes já o fazia com a imagem dos grandes vitrais, com as pinturas catequéticas dos grandes artistas, com o desenho arquitetônico das Catedrais, agora são as viagens dos Papas que arrastam dezenas de fotógrafos de mídia (além dos próprios fotógrafos do Vaticano[1]); as ações das Igrejas em nível nacional e internacional são constantemente registradas; os atos de culto popular, as festas devocionais, a missa das pequenas comunidades espalhadas pelo Brasil, o trabalho pastoral dos leigos nas noites de frio com as comunidades carentes, ou da Pastoral da Criança com a pesagem dos recém-nascidos, movimentam cliques, divulgações, likes (ou, ao menos, deveriam).

É  nesse contexto, de uso da fotografia como meio de comunicação, registro, história (e porque não dizer: arte), que ela, a fotografia, precisa ser realmente debatida e estimulada em todos os níveis de ação comunicante da Igreja, para ser, também, meio de evangelização. Assim como se pensa e se debate o melhor tom para as matérias, as notas informativas, os textos meditativos, as mensagens com uma pitada de humor ou as pautas com grande carga de dramaticidade, há espaço e necessidade para um estudo e um cuidado com a fotografia que fazemos e que utilizamos, em todos os níveis.

Para isso, convido a uma reflexão inicial, nunca (ou raramente) suscitada, e que, a fim de dar parâmetros e fundamento para a meditação da fotografia que fazemos e que usamos no seio da comunicação eclesial (e da evangelização), merece destaque: como denominar essa fotografia feita a serviço da Igreja, da missão, da vocação? Como se titular esta fotografia que bebe no fotojornalismo mas que vai além do fotojornalismo; que bebe na fotografia autoral mas que vai além dela; que se utiliza do que se chama de fotografia de eventos mas que a ultrapassa em sentido e expressão; uma foto e uma mensagem além do retrato, da foto de estúdio, da foto de arquitetura…?

(Créditos: André Fachetti)

É comum chamarmos a isso de fotografia religiosa: aquela feita no âmbito do exercício religioso, de forma especial no acompanhamento e registro do culto cristão católico: a Missa, a Celebração da Palavra, o Batizado, a Ordenação, a procissão… É, basicamente, o lugar onde se dedicam os agentes de Pascom, com as ferramentas de que podem dispor, sejam grandes câmeras, sejam pequenos smartphones que são as câmeras mais modernas da atualidade… É o lugar onde, muitas vezes, começam os aprendizados e despontam alguns mais ousados, ou mais apaixonados, ou mais esforçados, que descobrem a melhor forma de registrar e apresentar, à pequena comunidade ou ao mundo, uma imagem que testemunhe o exercício pessoal e comunitário de uma Igreja em missão.

Meu convite, contudo, que há tempos venho projetando, pensando, debatendo, meditando, é que reconheçamos esta categoria de fotografia como a Fotografia Litúrgica: no âmbito da nossa comunicação – comunicação católica, consciente, com uma mensagem certa para interlocutores muitas vezes incertos – a fotografia feita por nós também nos identifica, nos marca, nos alinha. E, dentro da Igreja Católica, é a ação litúrgica que nos marca, nos une, e amplifica as nossas vozes.

Assim, pensar uma Fotografia Litúrgica é romper os limites de uma dita fotografia religiosa que se preocupa unicamente com as expressões de religiosidade, aspectos externos, às vezes meramente cultuais, para que ganhe espaço e valor dentro de nossa consciência de agentes de comunicação católica que nossa imagem, nossa arte, nosso desenho, nossa fotografia é expressamente comunicante de uma unidade que não se limita ao centro do culto religioso, mas parte dali para chegar a todas as outras ações eclesiais. E, aí, evangelizar.

(Créditos: André Fachetti)

A fotografia na Igreja Católica é uma fotografia litúrgica. A fotografia religiosa pode ser um gênero maior que abrange inúmeras questões de religiosidade, praticamente uma abordagem sociológica. Mas a fotografia para nós, aquela à qual somos chamados a trabalhar e experimentar, é a que brota da verdadeira e melhor comunicação da Igreja. Que é o fazer litúrgico.

Assumir a fotografia de comunicação católica como uma Fotografia Litúrgica, nos dá a clara referência de que nossas imagens estão necessariamente conectadas a toda ação litúrgica da Igreja implantada por Nosso Senhor Jesus Cristo e com ela falam, e com ela se comunicam. Pensar e fazer a fotografia como liturgia, aproveita da liturgia o que ela tem de mais rico: inserir a quem dela participa no centro do mistério celebrado, mistagogia.

Nesse formato, a fotografia feita em um show de evangelização transcende a luz, o palco, o gesto, e dialoga sobre o sagrado, também ali. A fotografia da celebração eucarística deixa de ser apenas o registro do momento já vivido, e passa ao nível da introdução de quem a vê, mesmo depois do acontecido, em um momento de oração. A fotografia feita durante a ação social da sua comunidade, do seu movimento eclesiástico, não só reporta o fato, mas convida a participar.

(Créditos: André Fachetti)

Assumir uma Fotografia Litúrgica simboliza que nossa liturgia ultrapassa o aspecto meramente “espiritualizado”; é voz em uníssono do Povo de Deus em ação – e a fotografia também é missão e ação litúrgica quando registra todos os tipos de fazer litúrgico dentro das celebrações, mas também os outros tipos de manifestação fora do templo, porque é também lá, nas ações pastorais, na investigação das injustiças com o mais fraco, na mobilização dos esforços em direção ao outro, no registro das ações, das entrevistas, na criação de imagens artísticas que criem condições para a reflexão pessoal e comunitária, que o agente de Pastoral de Comunicação, fotógrafo, está em unidade com a Igreja que se expressa pela Liturgia, típica ação comunicante de Deus para com seu povo e do povo para com Deus.

Suscitar a Fotografia Litúrgica é suscitar uma construção de imagem com ainda mais comunicação. Ainda mais significado. E verdadeira evangelização através da imagem.

[1] Sou um fã e um pesquisador do trabalho magistral do já aposentado Arturo Mari e do atual fotógrafo oficial do Papa, o italiano Francesco Sforza.

Fonte: Pascom Brasil – André Fachetti Lustosa

 

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