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Crise ou noite escura: o sofrimento à luz da fé

20/10/2021   .    Artigos de Formação
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Crise ou noite escura: momento mais delicado do crescimento em Cristo. Acontece quando o cristão se depara com o inevitável. O maior desafio do ser humano se encontra no enfrentamento do inevitável, quando lhe acontece o que não queria e o que não planejara. Quando a realidade não corresponde a seus desejos e expectativas.

O imprevisto pertence à dimensão do inevitável. Alguns estudiosos o chamam de destino, compreendido não como o que Deus determinou desde sempre para cada um, mas como o que nos acontece sem a participação de nossa liberdade ou decisão. Afinal, ninguém escolhe o sofrimento.

Daí advém a crise, situação crítica, arriscada e exigente, que exige mudanças importantes, para melhor ou para pior, dependendo da reação pessoal e do empenho da liberdade. Esse fenômeno foi muito bem observado, desde sempre, no caminho espiritual. No desenvolvimento psicológico há também momentos fortes de desconcertos e incertezas.

espiritualidade cristã, desde seus inícios, se debruça sobre o sofrimento, a cruz, a desolação, o abandono e as provas. Quem nunca foi provado pelos acontecimentos da vida? Fator decisivo no progresso rumo à maturidade cristã, uma fase que parece romper com as precedentes.

Quem passou pelas outras cresceu, amadureceu, adquiriu autoconfiança e, portanto, esperaria um nível mais elevado de integração e de harmonia. Sobrevém, ao contrário, uma situação pessoal desconcertante, que rompe as regras do programa. Obscuridade, aridez, abandono, incapacidade total são expressões dessa experiência vivida por muitos cristãos.

Santa Teresa de Calcutá, no auge da crise, abriu seu coração:

“Dizem que a pena eterna que sofrem as almas no inferno é a perda de Deus… Em minha alma eu experimento precisamente esta terrível pena da perda de Deus, de Deus que não me quer, de Deus que não é Deus, de Deus que na realidade não existe. Jesus, te rogo, perdoa minha blasfêmia.

Os homens e as mulheres espirituais conhecem os sofrimentos. No meio da crise, Teresa se mantém fiel a Jesus e ao Evangelho. Expressa o seu sofrimento, grita-o, mas não muda a orientação fundamental da sua vida para Deus. Ela crê e é sustentada pelo Espírito Santo na mais pura desolação interior. O que ela diz não causa admiração, porque o sofredor goza do “privilégio de Jó”, ou seja, pode dizer o que quiser.

A crise produz uma ruptura, que nada mais é do que uma mudança de rota, que põe o cristão no verdadeiro caminho do amadurecimento em Cristo, morto e ressuscitado.

Morte e ressurreição não são ideias teológicas abstratas, fazem parte da vida de todos os que verdadeiramente querem servir a Jesus.

A espiritualidade antiga afirmava: Deus “envia sofrimentos”. Mentalidade hoje superada, porque Deus, enquanto amor, não deseja o sofrimento de nenhum de seus filhos. Deus não manda sofrimentos – sequer os permite – apenas não interfere. Respeita a autonomia do criado e a liberdade humana.

Assim foi com Jesus, Deus-Pai não “permitiu” que seu Filho sofresse, como muitas vezes se diz. Ele apenas não interveio. Uma vez morto em consequência da rejeição a seu projeto de construção do Reino, o Pai o ressuscita, fazendo vitorioso o que fracassara.

O sofrimento, quando vem, exige, para quem crê, ser enfrentado à luz da fé. Jesus o enfrentou na confiança inabalável no Pai. Na vida pessoal, todos fazem a experiência do sofrimento, fruto da dissonância entre a realidade e o desejo. Afinal, quem tem uma vida ideal? Quem não se depara, todos os dias, com a dimensão da cruz em sua vida?

Pois o cristão enfrenta as provas da vida em união com Cristo, o que lhes garante um sentido e faz amadurecer na fé. O cristão, unido a Cristo desde o batismo, participa do seu mistério pascal também quando sofre. Seu sofrimento, portanto, visto à luz da fé, o faz crescer e amadurecer na adesão a Cristo.

Fonte: Portal A12 – Pe. Paulo Sérgio Carrara, C.Ss.R.

Foto: Shutterstock

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