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“A ALMA DA SAGRADA TEOLOGIA 00/00/0000

 

Na Exortação Apostólica, o Papa Bento XVI, citando a Constituição dogmática Dei Verbum, refere-se ao estudo da Sagrada Escritura como a alma da sagrada Teologia.

Na abordagem do estudo de Teologia surgem vários questionamentos:

O que significa fazer teologia? Qual é mesmo o ponto de partida da Teologia? Por que estudamos Teologia¿ São alguns questionamentos que se apresentam diante da expressão da fé. Trata-se de um profundo desejo de saber o que significa a dimensão da fé.

A pessoa de fé quer saber o que é mesmo aquilo que acredita, se é verdade ou não. Quer saber também o que implica tudo aquilo em sua vida concreta e em seu destino.

É que a fé leva em si essa busca: a curiosidade. Ela quer saber de si mesma. É possuída por um dinamismo interno que a leva a se auto-compreender.

Como diz a definição clássica da teologia: “fides quaerens intellectum (a fé exige o intelecto, busca entender). É a expressão cunhada por Santo Anselmo (+ 1109). Significa: a fé é desejosa de saber. Ela busca luz e compreensão.

Nesse sentido Sto. Anselmo segue em linha direta o que Sto. Agostinho havia dito: “Desejei ver com a inteligência o que acreditei”[1]. Há, portanto, na fé uma “vontade de verdade”.

Outro elemento constitutivo da fé é o amor. Quem ama medita, divaga. O amor faz pensar. Quando a fé seduz a razão, então nasce a teologia. A fenomenologia do ato teológico é descrito por S. Tomás de Aquino nestes termos, com um sabor agostiniano:

 

 “No fervor de sua fé, a pessoa ama a verdade que crê, a revolve no seu espírito e a abraça, procurando encontrar razões para seu amor”[2]

 

Em outra parte, afirma:

 

         “O amante não se contenta com a apreensão superficial do amado. Mas é levado a refletir (disquierere) no seu interior cada coisa que concerne ao amado (...) Assim, o amado habita (immoratur) no amante”[3].

 

          O doutor angélico vai mais longe. Chega a dizer que é o amor que está na raiz disso que chamamos “êxtase intelectual”, que nos põe para fora de nós mesmos, nos faz meditar sobre o Amado e nos torna aptos para compreender as coisas supra-racionais. Chama essa saída de “primeiro êxtase”, o qual predispõe para o “segundo êxtase”, o da comunhão direta e imediata com o Amado, e que podemos chamar de êxtase afetivo”[4].

          “Onde está o amor, aí está o olhar”[5] Esse dado elementar da psicologia do amor tem uma profunda significação epistemológica. Deste modo, se manifesta verdadeira a expressão agostiniana: “O próprio amor é inteligência”[6].

          Foi S. Boaventura que mais enfatizou o amor como fonte particular de teologia:

 

         “Quando a fé crê por causa do amor daquele em quem crê, então deseja possuir as razões disso”[7]

 

          Sendo assim, seria dupla a fonte da teologia: a fé e o amor. Mas pode-se reduzir afinal a teologia a uma fonte só: a fé que se faz amor: a fides quaerens, a fé desejosa e amorosa.

          Portanto, não é tanto o teólogo que se ocupa com a fé, é antes a fé que ocupa o teólogo. Ela o precede e o solicita.

           Neste sentido tem razão Gustavo Gutierrez, que afirma que o primeiro ato da Teologia é a fé. E o estudo e a reflexão teológica é ato segundo.

           Como vimos, o que desperta a teologia é a fé e o espírito crente. Mas antes de qualquer determinação particular (visão, experiência, prática), a fé, em sua raiz mais profunda, é irrupção do “ser novo”, da “vida nova”. É novo nascimento. Numa palavra, fé significa “conversão’, como transformação profunda do ser, como morte e ressurreição. Tal é a fé em sua unidade e globalidade: um novo modo de existir.

          Antes, pois, de constituir um saber, um sentir ou um agir particulares, como especificaremos logo mais, a fé é da ordem da ontologia: é receber e possuir um “novo coração e um espírito novo” (cf. Ez 36,26). É ser regenerado. A fé-conversão torna-se então a realidade fundadora de um nova visão do mundo, de uma nova experiência da vida e de uma ética igualmente nova.

          E é daí que surge também um novo saber sobre Deus e o mundo: a teologia cristã. O novo ser dá início a um novo pensamento. A teologia tem, portanto, em seu princípio mais originário o evento instaurador de uma nova vida, de uma existência outra. É, em breves termos, a metánoia, não apenas como mudança de mentalidade, mas antes como evento radical, global e decisivo. Só uma nova subjetividade pode captar a nova realidade. Só uma pessoa transformada pode entender a fundo as coisas de Deus. Só um ser novo pode apreender a boa nova.‘’

 

A estrutura complexa da fé-conversão

 

          Por outro lado, a fé, enquanto uma atitude totalizante, ou opção fundamental, envolve a vida da pessoa e compromete seu destino derradeiro. É um ato complexo, rico de múltiplas determinações. Ora, a teologia esposa necessariamente a estrutura de seu objeto e princípio – a fé.

          Podemos aqui destacar na fé três componentes principais: a experiência, a inteligência e a prática. Assim, a fé tem algo de afetivo, de cognitivo e de normativo.

          A unidade desses três níveis se exprime de modo particular e concreto no culto. Aí a pessoa acede a certo conhecimento acerca das coisas divinas, faz a experiência das mesmas e, por fim, se dispõe a obedecer às suas exigências. Isso tudo se dá num único ato perceptivo. Assim, por exemplo, confessar: “Deus existe”, implica em conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, ao menos potencialmente. Do mesmo modo também, quando os primeiros cristãos confessavam “Jesus é o Senhor”, deslegitimavam ipso facto o culto do pretenso senhor daquele tempo: o César divinizado. Hoje, professar a fé em Jesus Cristo implica uma negação de qualquer outra crença, como o “espiritismo” e seu derivados.

          Os três componentes “pisticos” de que falamos tinham sido individuados pela tradição teológica sob a seguinte terminologia:

 

   - fides quae: é a fé-palavra, a fé dogmática;

   - fides qua: é a fé-experiência, a fé fiducial;

   - e fides informata: é a fé-prática, a fé encarnada.

 

          Ora, a fé, é simultaneamente princípio, objeto e objetivo da teologia. E o é na riqueza das suas múltiplas dimensões. Por isso, entendendo a fé como um ato total de obediência à Palavra, como faz Paulo (cf Rm 1,5), podemos dizer com um Reformador: “Todo o conhecimento de Deus nasce da obediência”(Calvino). Eu diria mais, “todo conhecimento de Deus nasce da obediência da Fé”.

          Aqui podemos tirar algumas conclusões a partir da tese geral de que a fé é o princípio ou fundamento de toda teologia.

 

A Relação íntima entre fé e teologia.

 

Podemos dizer que existe, entre a fé e a teologia, uma relação interna ou orgânica, e não uma relação meramente exterior ou mecânica. Portanto, percebe-se a continuidade vital entre essas duas realidades, e não podemos reduzi-la a uma mera justaposição.

          Poderíamos aqui usar muitas metáforas. Assim, a fé é para a teologia:

         

          - como a seiva para a árvore;

          - como a fonte para o rio;

          - como o fermento para o pão;

          - como a alma para o corpo;

          - como o punho fechado para a mão espalmada.

 

          A teologia é a fé mesma que se articula, a partir de dentro, em discurso racional. Este é o desdobramento teórico da fé. É seu desabrochamento intelectual. Teologia é fides in statu scientiae ( a fé em estado de ciência). É o pathos (amor paixão) que toma a forma do logos, a experiência que se faz razão. É a sabedoria no modo de saber.

 

          A teologia não acrescenta materialmente um pingo de luz à fé. Desenvolve apenas seu conteúdo material. Desdobra suas virtualidades latentes. É a ratio estendendo o intellectus: a razão explanando a intuição. Portanto, a fé é como a enteléquia da teologia, isto é, sua forma dinâmica interna. É seu conatus, sua alma viva e inquieta. Eis o que diz Clemente de Alexandria (ca. 150), diretor do primeiro instituto de teologia, o Didaskalion:

 

         “A fé é, por assim dizer, um conhecimento elementar e concentrado das coisas necessárias. A gnose (=conhecimento teológico), por sua vez, é a demonstração firme e segura do que se recebe na fé. Ela se edifica sobre a fé, por meio do ensinamento do Senhor, e conduz a uma indefectível posse intelectual”[8]

 

          Como podemos ver, a teologia como discurso se distingue do discurso da fé, tal qual a confissão. Dá-se entre as duas certa ruptura – uma ruptura no nível da forma, especificamente da linguagem[9]. A teologia é mutável, diversificada, enquanto a fé tem um caráter absoluto, definitivo.

          Isso tudo é verdade no plano da forma. Contudo, no do conteúdo, há profunda continuidade. A substância viva da teologia é a própria fé. A teologia não diz outra coisa que a fé, só o diz de outro modo. Non novum sed nove: não diz coisas novas, mas diz as mesmas coisas perenes da fé, de modo diferente.

 

          Por isso tinha razão Tertuliano ao dizer:

 

         “Nós não temos curiosidade além de Jesus Cristo. Nem temos necessidade de investigar além do Evangelho. Quando cremos, não sentimos falta de outras crenças, pois a primeira coisa que cremos é que não há outra coisa para crer”[10]

 

S. João da Cruz afirma o mesmo em outros termos:

 

“Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua única Palavra – e não há outra -, (Deus) disse-nos tudo de uma vez nessa Palavra e nada mias tem a dizer.”[11]

 

          A fé im-plica dentro de si a teologia; e a teologia ex-plica, como que para fora, a fé recolhida em si mesma. Na fé encontramos uma teologia implícita e na teologia, uma fé explícita. As razões teológicas se relacionam com a fé não ao modo da “substituição” ou da “diminuição”, mas ao modo da “adição”[12]

 

A Primazia da fé sobre toda teologia.

 

          A fé, fonte da teologia, é naturalmente anterior a ela, quer do ponto de vista temporal, quer estrutural. Antes da teologia, temos a fé; antes da inteligência, a memória; antes da reflexão, a proclamação. Na teologia cristã, a fé é o primum, a archée (origem) estrutural e estruturante da teologia.        

          Essa é uma afirmação que atravessa toda a tradição teológica. E isso desde o começo. É o que testemunha a citação, invocada pelos grandes teólogos da Igreja, desde Irineu, passando por Agostinho e repetida por toda a idade Média: “Se não acreditardes, não compreendereis” (Is 7,9 = LXX.). Temos aí o que foi considerado a “carta da intelectualidade cristã”[13].

 

          Mas foi Sto. Agostinho que mais enfatizou o primado da fé para a compreensão teológica. É dele a definição mais sintética que a teologia recebeu em sua história: intellectus fidei – a inteligência da fé, sua autocompreensão.

          De Agostinho nos vem ainda o conhecimento crede ut intelligas: crê para entender. Praecedit fides, sequitur intellectus: primeiro vem a fé, depois o entendimento[14]. E mais: “Não pretendas entender para crer, mas antes crer para entender”[15].       

          Temos muitos outros testemunhos desse porte que poderíamos citar aqui, mas não quero abusar da vossa bondade.

          Desses testemunhos se pode deduzir claramente que a teologia é realmente o discurso de Deus, mais que um discurso sobre Deus. Ela se faz a partir de Deus e não tanto em torno de Deus.

          Poderíamos dizer ainda que a teologia é “palavra da Palavra”: é um falar a partir do falar mesmo de Deus. Nesse sentido, é um “discurso de segunda ordem”. Seu objeto é o sujeito, uma pessoa, “Alguém[16]. Deus é o sujeito eterno da teologia. A palavra teológica não passa de um eco humano da Palavra divina.

 

          Concluo com uma fórmula de oração de Sto. Anselmo de Cantuária:

 

            “Eis-me, ó Senhor meu Deus, ensina, agora, ao meu coração onde e como procurar-te, onde e como encontrar-te. Senhor, se não estás aqui, na minha mente; se estás ausente, onde poderei encontrar-te? Se tu estás por toda parte, por que não te vejo aqui? Certamente habitas uma luz inacessível. Mas onde está essa luz inacessível? E como chegar a ela? Quem me levará até lá e me introduzirá nessa morada cheia de luz para que ali possa enxergar-te?”



[1] “Desideravi intellectu videre quod credidi”: De Trinitate, 15, 28, 51: Pl 42, 1098.

[2] Summa Theologica (=ST), II-II, q. 2, a. 10, c.

[3] ST I-II, q. 28. a. 2, c.

[4] Cf. ST I-II, q. 28, a. 3, c.

[5] TOMAS DE AQUINO, in Sent. III, 35, 1,2.

[6] “Amor ipse intellectus est”...

[7] I Sent., proem., q. 2, ad 6. citado pela instrução da CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ (Veritatis Donum, 1990), n. 7, nota 3.

[8] Stromata, 7,  57, 3.

[9] Cf. Clodovis BOFF, Teologia e prática. Teologia do Político e suas mediações, Vozes, Petrópolis, 1993, 3ª. Ed., seção II, cap. 3, § 10, espec. nota 5, onde o autor elabora o conceito de “quase-ruptura”.

[10] De praescriptione haereticorum, 7, 21: Pl 2,24.

[11] A subida do Monte Carmelo, I.II, cap. 22, reportado também na Liturgia das horas, Ofício das leituras, 2ª leitura, segunda-feira, 2ª semana do Advento.

[12] São os termos de Sto. TOMÁS, In Boetium de Trinitate, q. 2, a. 3, c.

[13] Segundo Yves CONGAR, La foi et la théologie, Desclée, Paris, 1962, p. 172.

[14] Sermo 118, 1: PL 38, 672.

[15] In Ev. Jô. Tract. 29, n. 6: PL 35, 1630-1631.

[16] Verbum Domini, n.    p. .....


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